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De todas as solenidades que
são promovidas pela OAB a que mais me comove e alegra
é a de entrega de carteiras aos novos advogados. A
sala repleta de sonhos e de esperanças sempre irradia
uma energia, um entusiasmo, uma força espiritual que
recarregam a velha bateria da minha jovem alma de advogado.
Porque a maioria das
pessoas sempre vê os uísques que a gente bebe,
mas não os tombos que a gente leva, imaginam os novos
colegas que um advogado que é tributarista há
três décadas seja um grande sucesso. E aí
vem a pergunta: "Existe na advocacia uma fórmula
para o sucesso?" Eis aí uma boa pergunta, a merecer
uma resposta que talvez não seja tão boa. De
minha parte, acredito que a resposta seja "sim".
Como estudei e quase
aprendi alguma coisa de álgebra, atrevo-me a apresentar
essa fórmula: sA = 3cC x 3P . Acharam estranho? Pois
não é. Vamos resolver a equação.
O tal s A significa "sucesso
na Advocacia". Não podemos esquecer que Advocacia
se escreve com A maiúsculo. Talvez as outras profissões
possam ser identificadas com palavras que se iniciem por letras
minúsculas. Mas a Advocacia não é uma
profissão como qualquer outra.
Primeiro, porque tem
a sua essência e a sua definição fixadas
no texto da Constituição, no artigo 133, que
diz ser ela exercida por um (a) profissional que é
"essencial à administração da Justiça..."
Segundo, porque o trabalho do advogado consiste numa missão
das mais nobres: defender a honra, a liberdade e o patrimônio
das pessoas. Para muitas pessoas esses três elementos
que defendemos valem mais que a vida...
Os elementos 3cC x 3P,
significam, respectivamente, o primeiro, a essência
da profissão. São três letras "c",
complementadas por outra letra "c". O segundo "c",
o maiúsculo, é o cliente, essa figura sem a
qual a advocacia não existe, pois não se advoga
sem cliente. Claro que há os que advogam em causa própria.
Mas estes, na verdade, têm um idiota como cliente...
Os três cC são
os objetivos do advogado na sua caminhada em direção
ao sucesso: conquistar o Cliente, conservar o Cliente e cobrar
o Cliente. Se o advogado não conquista cliente, o resto
não existe. Mas só conquistá-lo não
é suficiente. Precisamos conservá-lo. E nada
disso adianta se a gente não conseguir cobrar o Cliente.
Aquele que não paga, não serve para nada...
Os três P são
as qualidades ou virtudes sem as quais não conseguimos
exercer nossa profissão: Profissionalismo, Paciência
e Perseverança.
Vamos examinar, primeiramente,
as três ações relacionadas com o cliente:
conquistar, conservar e cobrar. A primeira, sem dúvida,
é fundamental. Vão surgindo por aí diversas
propostas para tentar atingir esse objetivo. A maioria delas
usa métodos anti-éticos e alcança resultados
frágeis. Consegue-se conquistar alguns clientes com
publicidade e propaganda, com métodos de "marketing"
e similares. Mas a única conquista que vale a pena
e se mostra sólida é através da indicação
de outro cliente. Isso, claro, leva tempo e depende muito
dos resultados que o advogado já obteve na profissão.
Para conquistar os primeiros
clientes, o caminho é sempre o mesmo: amigos, parentes,
alunos, vizinhos, etc. - Por isso é que dar aulas,
fazer palestras e conferências, ainda que se ganhe quase
nada, é um bom caminho para se iniciar a jornada da
conquista dos clientes.
Conservar o cliente é
muito importante. Talvez mais do que conquistá-lo,
pois aquele que permanece com o mesmo advogado durante muito
tempo é a melhor fonte de referências e de indicações
de novos clientes. E isso é até mais fácil
do que as outras fases. Basta trabalhar direitinho, atender
o cliente com atenção, dedicar-se aos seus problemas
com muita atenção, mantê-lo sempre informado
sobre as causas, prestar contas com rigor, etc.- Todas essas
atividades eram complexas, mas estão se tornando cada
vez mais simples com o avanço da tecnologia. E a "propaganda"
que o cliente satisfeito faz é a mais eficiente do
mundo e, importante, não custa nada...
Certamente a parte mais
difícil do relacionamento com o cliente é a
cobrança dos honorários. Isso passa, primeiramente,
pelo profissionalismo. Não se deve trabalhar para ninguém
sem contrato escrito. O documento evita esquecimentos, define
obrigações, previne problemas e pode servir,
se for o caso, para mover ação judicial de cobrança
de honorários, quando o cliente resolver não
honrar os compromissos assumidos.
A cobrança de
honorários deve seguir a Tabela da OAB e deve permitir
a remuneração decente do nosso trabalho. Somente
em situações especiais como, por exemplo, causas
de valor muito elevado, podemos estabelecer honorários
abaixo da Tabela. Mesmo assim, servindo esta de parâmetro
para a fixação. Devemos lembrar que o advogado
poderia, com os conhecimentos de que dispõe, exercer
outras atividades.
Por isso, deve ganhar
pelo menos o mesmo que ganha um juiz, um promotor, um delegado,
logicamente que acrescido das vantagens que esses profissionais
auferem legalmente: encargos sociais, férias, assistência
médica, aposentadoria, etc.- E se o advogado mantém
um escritório, os custos e investimentos devem ser
ressarcidos ou recuperados através dos honorários.
Se o cliente quer advogado
de graça, deve-se encaminhá-lo à defensoria
pública ou à assistência judiciária.
Resolvidas essas 3 questões
da equação inicialmente proposta, - conquistar,
conservar e cobrar o cliente -, devemos nos preocupar com
a segunda parte: profissionalismo, paciência e perseverança.
Profissionalismo começa
pela contratação de honorários por escrito,
passa pela organização do escritório,
pela elaboração de relatórios periódicos,
por prestação de contas de forma clara e transparente,
por atendimento rápido e retorno eficiente aos contatos,
por aperfeiçoamento cultural constante do advogado,
por participação em órgãos de
classe, por formação de equipes eficientes de
colaboradores, por relacionamento de bom nível com
servidores públicos, etc.
Profissionalismo implica
ainda em adotarmos uma regra fundamental de conduta, que é
a de levar a sério a Advocacia. Ela não é
um sacerdócio, como alguns imaginam. Aliás,
parece-me que já há sacerdotes que são
principalmente profissionais, transformando missas em "shows",
pregações em espetáculos e templo em
banco... Talvez por isso já ouvi em algum lugar um
trocadilho horrível: "templo é dinheiro..."
Paciência, advogado,
Paciência! - Sem paciência não se pode
advogar. Talvez seja por isso que o advogado se vê obrigado
a estudar filosofia e psicologia desde o colegial. Precisamos
de paciência para não nos irritarmos com o mau
funcionamento dos serviços públicos, com a exagerada
demora das decisões judiciais, com a falta de educação
de alguns serventuários públicos, juizes, delegados
e até mesmo de alguns colegas. Uns pensando que estão
sentados no trono de Deus quando tomam assento nos tribunais,
outros imaginando que as causas são eternas e adversários
eventuais devam ser inimigos eternos. Todos nós, eles
inclusive, somos criaturas humanas e a perfeição
não é uma característica da nossa espécie.
Finalmente, em nenhuma
profissão, em nenhuma atividade humana, se chega a
algum lugar sem perseverança. O sucesso na Advocacia,
- e afinal é disso que estamos tratando - não
é resultado de mágica, mas depende de uma luta
constante, de um esforço permanente. Enfim, de muita
perseverança. Sem desânimo, sem acomodação,
sem ficar parado, esperando a banda passar. Como já
disse a canção: "quem sabe faz a hora..."
A Advocacia é
tudo isso. Uma Profissão sublime, que cuida da honra,
da liberdade e do patrimônio das pessoas. Tem "status"
de atividade essencial à administração
da Justiça. E sem Justiça não existe
sociedade civilizada.
Ninguém nasce
advogado e nem precisa morrer nessa condição.
Todos apenas nascemos criaturas humanas e fomos criados para
a felicidade. Quem não a encontrar na nossa Profissão,
deve procurá-la em outro lugar...
Por tudo isso, a Advocacia
merece que observemos a "fórmula" aqui sugerida
ou qualquer outra que as pessoas decentes e honradas possam
descobrir...
Raul Haidar, Advogado
Tributarista e Conselheiro da OAB/SP.
Fonte: Revista Consultor
Jurídico, de 02 de dezembro de 2002.
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